A Contadora de Histórias


Q
uando Juliana entrou na classe, todo mundo estranhou a novidade:
– Hoje a gente vai ficar sem história na hora do recreio...
– Uééé... por quê? – estranhou Diego. – Dona Elisa sempre conta histórias pra gente...
– É que ela faltou hoje.
Dona Elisa, a idosa faxineira da escola, tinha uma memória maravilhosa e uma imaginação melhor ainda. Todos os dias, a criançada se reunia em torno dela na hora do recreio e era uma delicia! Muito melhor do que desenho animado na televisão. Às vezes, eram histórias antigas, que dona Elisa sabia de cor. Aventuras com príncipes, princesas, dragões, bruxas e gigantes ameaçadores. Outras vezes, eram histórias que ela mesma inventava e das quais o pessoal parecia gostar ainda mais.
– Que pena! – lastimou Diego. – Mas amanhã ela vem e apostou que vai contar uma história nova, ainda mais legal!
Mas, no dia seguinte, dona Elisa faltou de novo.
– O que será que está acontecendo? – perguntou Diego. – Será que ela está doente?
Juliana decidiu:
– Depois da aula, vamos à casa dela. Precisamos saber o que aconteceu.
– Isso mesmo. Sem história é que a gente não pode ficar!
Dona Elisa morava meio longe da escola, mas Juliana e Diego encontraram facilmente a casa da contadora de história.
La estava a querida dona Elisa deitada na cama:
– Que bom que vocês tiveram a idéia de me visitar, queridos! Vieram ouvir minhas histórias?
Juliana deu uma olhada para Diego. É claro que eles queriam se divertir mais uma vez com as histórias de dona Elisa, mas não era por isso que estavam ali.
– Nada grave, Juliana. São as minhas costas. Ando com umas dores... Mas já estou melhorando, com o repouso e os remédios.
– Que bom! – Disse Diego. – Quer dizer que logo a senhora vai voltar a escola?
Dessa vez, o sorriso apagou-se do rosto de dona Elisa.
– Acho que não, Diego. O médico disse que eu não posso mais ficar o dia inteiro ma abaixando para pegar papéis no chão. Que o meu trabalho é muito pesado. Vou ter de me aposentar...
Quando Juliana e Diego chegaram à escola com a terrível notícia, aconteceu uma verdadeira revolta! Todo mundo falando ao mesmo tempo:
– O quê?! Dona Elisa aposentada?
– E como é que a gente vai ficar?
– Ah, não, não e não!
– Quem vai contar histórias pra gente?
– Mas o que podemos fazer? – responda Diego. – Ela está muito idosa, com dor nas costas. O trabalho dela aqui na escola é muito pesado...
– Vamos falar com a diretora! – decidiu Juliana. – Quem sabe ela dá um jeito...
E foram. A diretora ouviu com paciência tudo o que as crianças diziam e, no fim, explicou a situação:
– É verdade, crianças. Dona Elisa realmente não pode mais trabalhar aqui. Mas fiquem sossegados. Logo teremos outra pessoa para fazer o trabalho de faxina.
Juliana pulou:
– Outra pessoa? Mas a gene não quer outra pessoa. A gente quer a dona Elisa!
– Compreenda, Juliana. Ela não aquenta mais o trabalho pesado e...
– Isso a gente entende – contou Diego. – Mas por que a senhora não contrata outra pessoa para fazer a faxina e deixa dona Elisa só como contadora de história?
– Porque esta é uma escola pública, Diego. Falta verba para quase tudo. Eu não posso manter dona Elisa na folha de pagamento e contratar outra faxineira...
– Então não contrate! – propôs Juliana. – A gente pode passar sem faxineira, mas não sem contadora de histórias!
– Isso é que não, Juliana – respondeu a diretora. – O pátio fica uma sujeira só, no fim do recreio. Eu preciso de alguém para faxina.
– Deixe que a gente ajude na faxina! – ofereceu Diego.
A diretora sorriu:
– Ora, Diego! Vocês têm é de assistir às aula. E a faxina é feita durante as aulas!
Juliana levantou-se e lançou a proposta mais maluca:
– Ninguém precisa limpar o pátio se a gente não sujar!
– Como?!
– É isso mesmo. Esta é a nossa escola, igual à nossa casa. Lá, a gente não joga lixo no chão, não é? Se ninguém jogar papel de bala ou sorvete no chão do pátio, a escola não precise de faxineira!
– Ora, Juliana! E as classes? E a sujeira que o vento traz da rua? E as folhas das árvores?
– Pode deixar, diretora – a menina estava com uma expressão decidida no rosto, feita gente grande. – A gente vai dar um jeito nesse problema!
A idéia maluca de Juliana começou a ser posta em prática por todas as crianças, que aceitaram com entusiasmo a proposta. Não, a escola contratou outra faxineira. Eles iriam cuidar da questão.
 E começaram. Em primeiro lugar, descobriram que a diretora não tinha verba para comprar cestos de lixo para o pátio. Então um grupo de crianças encarregou-se de arranjar latas grandes e caixotes, e de mantê-los bem forrados no recreio.
Diego falou com o dono do mercadinho próximo à escola e ele concordou em doar uma porção de vassouras (também, o homem tinha dois filhos estudando lá!). Assim, poucos minutos antes do final do recreio, todas as crianças pegavam suas vassourinhas e varriam as folhas das árvores e outras sujeiras menores. Eram tantas crianças e tantas vassouras, cada um com um pedacinho tão pequeno para varrer, que a limpeza não demorava quase nada.
Cuidaram das classes do mesmo jeito. Ninguém mais jogava papéis no chão, e tudo permanecia sempre limpíssimo.
Um dia, um aluno distraiu-se e deixou cair um papel de sorvete no pátio. Ah, tomou uma vaia tão grande de todos os outros, ficou tão vermelho de vergonha que, a partir daí, tornou a varredor mais dedicado da escola!
Só que, depois que as crianças se envolveram no problema, descobriram muitos outros. As verbas da escola estadual eram tão pequenas que a diretora enfrentava dificuldades maiores do que apenas que a limpeza. Faltava tudo. Não havia dinheiro para comprar lâmpadas novas, para substituir vidraças, para comprar livros para a biblioteca, para nada.
Por isso, as crianças resolveram que aqueles problemas eram também delas.
Em primeiro lugar, passaram a organizar festas e quermesses na escola, nos fins de semana. As mães colaboravam como bolos, doces e outras coisas que podiam ser vendidas aos pedaços. O dono da padaria próxima, que também tinha dois filhos estudando na escola, doou várias caixas de refrigerantes.
As crianças decoravam o pátio com bandeirinhas de papel de seda feitas por elas próprias e tomavam conta das barracas durante as festas.
Vendiam pedaços de bolo, doces e refrigerantes bem baratinhos, Pois nenhuma delas era rica. No fim das festas, sempre arrecadavam um bom dinheiro, que eram entregues a diretora para as compras mais urgentes.
Aos poucos, todos os comerciantes do bairro foram ajudando os alunos na campanha, e muitas das necessidades da escola eram satisfeitas sem que a diretora precisasse gastar nada, pois as crianças pediam com tanto jeito que ninguém tinha coragem de negar. Era só pedir, que as crianças conseguiam lâmpadas, vidraças e muitas coisas mais. Os livros para a biblioteca chegaram em tal quantidade que os alunos tiveram de conseguir com a marcenaria a doação de tábuas. Ganharam também alguns tijolos e elas mesmas construíram estantes para guardar os novos livros.
– Gente! – propôs Juliana em uma das reuniões que agora as crianças promoviam sempre para discutir o que deveria ser feito em seguida. – A gente pode conseguir muito mais! Que tal começar a pensar em um laboratório? E em instrumentos para uma banda de música? E em computadores?
– Computadores?! Isso! A gente pode tudo!
O entusiasmo tomou conta da escola. Alguém deu a idéia de fazer campanhas para o recolhimento de jornais velhos e garrafas. Com a venda daquilo tudo, era mais dinheiro que entrava!
– Aqui é como nossa casa! – dizia Juliana, excitada com aquilo que eles estavam conseguindo. – Se o governo não tem dinheiro para cuidar da nossa escola, cuidamos nós!
Os adultos do bairro concordaram com Juliana. Naquela escola estudavam seus filhos e eles não podiam só ficar reclamando do governo. Se não agissem, se não ajudassem o funcionamento da escola do modo que cada um pudesse, não haveria solução.
– E agora, pessoal – comandou Diego. – Vamos escrever cartas para o prefeito, para os vereadores, pra os deputados e até para o governador! Se a gente não pressionar, ai sim é que eles não vão mandar verbas para melhorar nossa escola! Vamos fazer um baixo-assinado turma!
Os alunos tinham descobertos que as soluções estavam em suas próprias mãos...
E a nova fase da escola passou a ser comentado nos jornais, no rádio e na televisão!
A diretora, no fim, não precisou contratar outra faxineira. A escola nunca estivera tão limpa, tão bonita e tão aparelhada.
Resultado dona Elisa foi melhorando e já podia voltar à escola, porque agora só precisaria fazer as coisas mais leves, pois teria uma porção de ajudantes! Assim, ela ficou com tempo de sobra, e as crianças a nomearam “contadora oficial de histórias”, a única função que faltava à escola e que o dinheiro conseguido pelas crianças não podia comprar...
O primeiro dia da volta de dona Elisa foi uma festa. O pátio estava lotado: a diretora, todos os funcionários e professores compareceram para ouvir a história que ela tinha criado pra aquela ocasião especial.
– Hoje eu vou contar a história de um grupo de crianças maravilhosas...
Pedro Bandeira

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